A leitura se fez presente na minha vida desde muito cedo, o incentivo direto, principalmente do meu pai, foi notoriamente importante para o desenvolvimento das minhas imaginações, emoções e sentimentos prazerosos e significativos provenientes dos livros.
Como a exemplo disso, quando eu tinha mais ou menos quatro anos de idade, tive a primeira sensação prazerosa quanto à leitura, consegui mediante vários esforços, com a ajuda do meu pai, ler a palavra margarina. Fiquei muito feliz, tive uma vontade quase que incontrolável de sair correndo pela casa, gritando, dizendo que eu já sabia ler – mesmo sendo essa a primeira palavra. Além disso, na escola – na época fazia o segundo período –, eu sentia um grande orgulho em saber que eram raras as crianças que sabiam ler antes da alfabetização, e eu era uma delas.
Do mesmo modo, sem dúvida, tenho que salientar que a minha mãe teve uma importância excepcional para o meu hábito de ler, só que era mais indiretamente. Meus pais trabalhavam muito, minha mãe era telefonista de uma grande empresa, o meu pai, operador de máquinas pesadas, e os meus dois irmãos estavam na fase da adolescência, eram raras as vezes que nos reuníamos nos dias da semana, os horários deles nunca se combinavam, e essa era uma das preocupações da minha mãe, que tentava ao máximo minimizar isso. Por volta das 19 horas, ela retornava para casa, fazia o jantar – quase sempre era sopa -, arrumava o que tinha que arrumar e me levava para dormir por volta das 21 horas, mas, antes disso, ela sempre deitava ao meu lado, perguntava como havia sido o meu dia e contava uma história. Creio que a maioria dessas histórias era inventada na hora, e eu adorava, pois sempre tinha uma emoção, um suspense, uma verdade que me fascinava muito, eu ficava viajando antes de dormir, imaginando-as ou simplesmente reinventando-as.
Logo depois dos meus dez anos de idade, eu recebi a notícia de que minha mãe estava doente, ela tinha uma das artérias do coração entupida, e a cirurgia tinha que ser feito de imediato, para a sua sobrevivência. Minha família toda se reajustou para a chegada dessa doença, e as histórias que me eram contadas antes de dormi foram abandonadas.
Mas não esquecidas. Acresce que o resto da minha infância se resumia em escola e hospital – e confesso que eu não gostava disso -, como já foi comentado, meu pai trabalhava muito e não podia ficar no hospital por muito tempo, e só restava eu para “cuidar” dela.
Ocasionalmente, quando eu estava no hospital com minha mãe, um grupo de evangélicos entrou no quarto onde estávamos, eles conversaram, oraram, deram um apoio psicológico, tanto para mim, quanto para ela. O grupo deixou alguns livros e dentre eles tinha um chamado “Patch Adams, O amor é contagioso” de Robin Williams, retrata a vida de um homem, que era apaixonado por duas profissões, a de palhaço e a de médico. Foi criticado oficialmente na escola de medicina por um professor, por sua “alegria excessiva”. Mas seguiu em frente, e resolveu usar dessa alegria para com seus pacientes.
Depois do fim dessa leitura, o livro me ajudou a observar “o mundo hospitalar” de outra maneira, e consequentemente eu poderia, por fim, ajuda-la.
De fato, ajudei. Comecei a gostar de ficar no hospital, percebia que a minha presença era bastante útil, não apenas pela ajuda física, mas distribuindo o amor de filha que sempre demonstrei a ela e a todos da minha família. Agradeço a esse livro por ter me aberto os olhos, quanto a isso.
Em 2006 – quase dois anos depois de receber a notícia da doença -, minha mãe acabou falecendo, eu já tinha 13 anos de idade, já sabia algumas coisas sobre a vida, mas me sentir perdida, sem rumo, sem família, sem amigos, para ser mais sincera, eu não lembro praticamente nada desse ano. A pessoa que me ensinou a importância da literatura, da leitura, da escrita, não estava mais presente. Eu não tinha mais a contadora de histórias oficial, eu não tinha mais a minha contadora de história e, dali para frente, tive que aprender a contar a minha própria história.
Em 2007, minha vida se modificou, meu pai praticamente se casou, meus irmãos se mudaram, e eu me foquei nos livros, de certa forma eu tentava me afogar neles, tentava fugir da realidade. Com isso, eu acreditava que estava fazendo algo de ruim para minha vida, mas, pelo contrário, me ajudou a crescer muito, me ajudou a observar o mundo sempre de outra maneira.
Hoje, eu amo ler, adoro escrever, e sou apaixonada pelas palavras, acredito que ainda irei defender a pátria, não com a força bruta, mais com a força do conhecimento e das palavras.
Jessyca Karina.