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terça-feira, 28 de agosto de 2012

Morena

Dá-me
por pura pena
último beijo, linda açucena.

Com lábios
empobrecidos
beija-me o rosto desfalecido.

Se queres
deixar-me louco
nega-me o beijo, humilha-me um pouco.

Depois
de um olhar cortante
não quero que fiques nem mais um instante.

Saindo,
tu vais zombando
lábios sorrindo, corpo vibrando.

Ficando
vivo chorando.
De amor gritando e por ti chamando.

Não olhes
pra não ter pena.
Estou morrendo por ti, morena.

                                                        Deidy Cunha
                                                                                             Mai/00

Cânticos

Com alma que vaga triste
cantando alto a solidão
componho a canção que ouviste
matando meu coração.

Por esta renúncia amarga
do doce amor que te ofereço
canto a canção mais pura
e provo do teu desprezo.

Devias pousar teu rosto
sobre meu alvo peito em chamas
para ouvir o clamor profundo
de um coração que te reclama.

Se foges, se vais para longe
e não ouves o meu cantar
pela vida, não sei onde,
hei de te ver chorar.

De saudade, em teus olhos negros,
uma lágrima há de brotar
e cantarás canções tão tristes
quanto as que hoje estou a cantar.

                                                               Deidy Cunha
                                                                                                                       Out/98

sábado, 25 de agosto de 2012

Cio

Vampira
ávida por sangue quente
-que sugo com tua saliva
além do desejo demente.

És vítima
querendo amores ardentes
-que roubas com fúria íntima
do meu corpo de ardores pungentes.

Querendo,
te mordo a nuca
te beijo o ventre
te sugo o sangue
te arranho as costas.
Doendo,
travando a luta
frente a frente
escorrendo o sangue
eu sei que gostas.

No ápice do amor selvagem
me dominas e me devoras
o meu prazer é uma miragem
que com teu gozo se evapora.

Lambendo teu corpo suado
deixando ferida em tuas costas
lambuzados de tanto pecado
deste amor eu sei que gostas.

                                                 Deidy Cunha   
                                                                                Set/98

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Bom amigo

Ela diz que jamais terá um animalzinho de estimação porque ele faria dela uma pessoa feliz, e isso ela não quer.
A felicidade é uma coisa que a domina e ela detesta ser dominada. A felicidade a reprime tanto que ela jamais conseguiu escrever uma frase sequer num momento de alegria. Ela costuma dizer que a felicidade a insulta com sorrisos inúteis, olhinhos revirados e bobagens ao pé do ouvido. Disso, ela quer distância!
O que ela quer é o desespero de um poço bem fundo. É o gosto amargo da rejeição, do fracasso e da angústia. Quer flertar com a morte e escrever os poemas mais lindos, que falem de dor, de remorso e tristeza.
Então, eu a deixo como está: depressiva e amarga. E me delicio com as doçuras que ela escreve...
Deidy Cunha

Lendo a vida

Desde pequena, ouvia meu pai contando histórias sobre meu avô. Português rabugento, austero e conservador. Um homem muito inteligente – meu pai frisava – gostava de ler, escrever poesias e artigos para o jornal local. Era doce na escrita, mas intransigente no convívio social. Eu não cheguei a conhecê-lo. Nasci exatamente um ano depois de sua morte. Mas aquele homem sempre despertou em mim uma curiosidade enorme. Um dia, descobri dentro da estante meia dúzia de livros antigos, e meu pai disse que eram do meu avô. Imediatamente, tomei-os como meus e comecei a lê-los. Não entendia nada, claro, mas eu gostava daquela sensação. Parecia que era por aquele caminho que eu conheceria meu avô. Percebendo meu interesse, meu pai me mostrou uma caixa cheia de papeis rabiscados e recortes de jornais. Eram os escritos do meu avô. Apaixonei-me profundamente pelas poesias e decidi, num devaneio infantil, que aquele era o meu tesouro, a herança que meu avô tinha deixado a mim, mesmo sem saber que um dia eu viria a existir.
Infelizmente, na minha casa não havia livros. De vez em quando, aparecia um gibi, mas eu tinha mesmo que me contentar com os livros didáticos. Só fui ter acesso à leitura quando mudei para uma escola que tinha uma biblioteca. Fiquei maravilhada! Foi nesta época que conheci a literatura infanto-juvenil: A Marca de uma lágrima, Rita está crescendo, A ladeira da saudade e a famosa Coleção Vaga-Lume, sem contar os livrinhos paradidáticos, que eu fazia questão de responder a todos os questionários antes que a professora mandasse.
Era meu pai quem me incentivava a ler. Ele sempre me dizia que não tinha estudado muito, mas que sabia muitas coisas por causa da leitura. Ele me contava as histórias da mitologia grega, as lendas amazônicas e muitas, muitas fábulas. Eram suas preferidas. E, no final, era eu quem tinha que dizer qual era a moral da história. Eu adorava!!!
Aos 14 anos, quando entrei no ensino médio, tive uma professora de literatura que eu amei desde a primeira aula. Era uma senhora muito alegre e que sabia tudo sobre literatura. Foi por causa dela que resolvi prestar vestibular para o curso de letras, tão grande era o fascínio que suas aulas me causavam. Foi ela, inclusive, que me apresentou à sessão circulante da biblioteca do Centur. Nem sei se ainda existe, mas era uma sessão onde podíamos fazer empréstimo de dois livros por semana. Dois livros por semana!!! Virei cliente VIP. Até as bibliotecárias já me conheciam. Esse foi um tempo de leitura voraz. Li todos os clássicos: Machado de Assis, José de Alencar, Eça de Queiroz, Castro Alves, Gregório de Mattos, Álvares de Azevedo, Pessoa, Neruda, Clarisse, Drummond, Quintana... e descobri, sozinha, por curiosidade, Rubem Fonseca, Marguerite Duras, Luiz Fernando Veríssimo e o meu tão amado Caio Fernando Abreu.
Foram três anos de uma paixão avassaladora que me subtraía do mundo. Eu não fazia mais nada na vida além de ler e ir à escola. Minha mãe reclamava da minha reclusão e do meu comportamento “anormal” para a idade. Em um período de férias, ela chegou a me proibir de emprestar livros. E eu corria para o meu pai, que sempre argumentava a meu favor.
Para resolver o meu “problema”, minha mãe me inscreveu na Fundação Curro Velho para fazer teatro. Ela nem imaginava que perderia a guerra de uma vez por todas. O teatro me apresentou a Shakespeare, Brecht, Beckett, Molière, Nelson Rodrigues... E a fundação me oferecia uma formação cultural que eu não encontraria em lugar nenhum. Foi lá que eu aprendi a gostar de artes plásticas, de cinema, de dança, de música popular e clássica e da cultura paraense. Foram os melhores anos da minha vida!! Em que eu conheci meus melhores amigos e meu marido. De certa forma, minha mãe se animou um pouco porque eu passei a sair de casa e a namorar.
Mas chegou a vida adulta, e, com ela, as responsabilidades do trabalho e da universidade. Precisei abandonar o Curro Velho e a vida artística para ser “gente grande”. Nunca mais voltei. Durante alguns anos, isso me atormentou. Eu tinha a sensação de estar incompleta, perdida num mundo que não era meu. Sempre senti uma saudade enorme de voltar a atuar. Mas o tempo me mostrou que não era bem isso. Na verdade, eu sentia falta das pessoas, dos amigos, da atmosfera do teatro, na arte pulsando na veia, do não ter compromisso com nada a não ser com a arte... e não do "atuar" em si. Essa fase da minha vida está muito bem guardada no lugar mais aconchegante do meu coração. Quando eu desci do palco para conhecer a vida real, ela me tomou por completo... Infelizmente.
Mas, voltando à leitura, aquela paixão avassaladora se transformou em amor. Hoje, leio pouco, muito menos do que gostaria. Mas costumo dizer que são os livros que me escolhem. Na maioria das vezes em que vou a uma livraria, não tenho nenhum livro em mente. Prefiro passear por entre as prateleiras, folhear um aqui, outro acolá, até que algum deles me escolha, ou não. Não forço mais a barra. Sempre que o fiz, eles ficaram pela metade.
Em casa, acumulei um pequeno tesouro: uma estante com os meus livros preferidos. Essa é a herança que eu pretendo deixar para minha filha – que já se mostra uma leitorazinha compulsiva aos seis anos de idade. E eu me orgulho muito disso, porque é culpa minha. Acho lindo vê-la sentando no sofá ao meu lado, com “Marcelo, Marmelo, Martelo” debaixo do braço, dizendo que vai ler para mim. E, pela milésima vez, eu escuto com atenção, desejando que esta cena se repita inúmeras vezes pelas futuras gerações da minha família.
                                                                                                   Deidy Cunha