Desde pequena, ouvia meu pai contando histórias sobre meu avô. Português rabugento, austero e conservador. Um homem muito inteligente – meu pai frisava – gostava de ler, escrever poesias e artigos para o jornal local. Era doce na escrita, mas intransigente no convívio social. Eu não cheguei a conhecê-lo. Nasci exatamente um ano depois de sua morte. Mas aquele homem sempre despertou em mim uma curiosidade enorme. Um dia, descobri dentro da estante meia dúzia de livros antigos, e meu pai disse que eram do meu avô. Imediatamente, tomei-os como meus e comecei a lê-los. Não entendia nada, claro, mas eu gostava daquela sensação. Parecia que era por aquele caminho que eu conheceria meu avô. Percebendo meu interesse, meu pai me mostrou uma caixa cheia de papeis rabiscados e recortes de jornais. Eram os escritos do meu avô. Apaixonei-me profundamente pelas poesias e decidi, num devaneio infantil, que aquele era o meu tesouro, a herança que meu avô tinha deixado a mim, mesmo sem saber que um dia eu viria a existir.
Infelizmente, na minha casa não havia livros. De vez em quando, aparecia um gibi, mas eu tinha mesmo que me contentar com os livros didáticos. Só fui ter acesso à leitura quando mudei para uma escola que tinha uma biblioteca. Fiquei maravilhada! Foi nesta época que conheci a literatura infanto-juvenil: A Marca de uma lágrima, Rita está crescendo, A ladeira da saudade e a famosa Coleção Vaga-Lume, sem contar os livrinhos paradidáticos, que eu fazia questão de responder a todos os questionários antes que a professora mandasse.
Era meu pai quem me incentivava a ler. Ele sempre me dizia que não tinha estudado muito, mas que sabia muitas coisas por causa da leitura. Ele me contava as histórias da mitologia grega, as lendas amazônicas e muitas, muitas fábulas. Eram suas preferidas. E, no final, era eu quem tinha que dizer qual era a moral da história. Eu adorava!!!
Aos 14 anos, quando entrei no ensino médio, tive uma professora de literatura que eu amei desde a primeira aula. Era uma senhora muito alegre e que sabia tudo sobre literatura. Foi por causa dela que resolvi prestar vestibular para o curso de letras, tão grande era o fascínio que suas aulas me causavam. Foi ela, inclusive, que me apresentou à sessão circulante da biblioteca do Centur. Nem sei se ainda existe, mas era uma sessão onde podíamos fazer empréstimo de dois livros por semana. Dois livros por semana!!! Virei cliente VIP. Até as bibliotecárias já me conheciam. Esse foi um tempo de leitura voraz. Li todos os clássicos: Machado de Assis, José de Alencar, Eça de Queiroz, Castro Alves, Gregório de Mattos, Álvares de Azevedo, Pessoa, Neruda, Clarisse, Drummond, Quintana... e descobri, sozinha, por curiosidade, Rubem Fonseca, Marguerite Duras, Luiz Fernando Veríssimo e o meu tão amado Caio Fernando Abreu.
Foram três anos de uma paixão avassaladora que me subtraía do mundo. Eu não fazia mais nada na vida além de ler e ir à escola. Minha mãe reclamava da minha reclusão e do meu comportamento “anormal” para a idade. Em um período de férias, ela chegou a me proibir de emprestar livros. E eu corria para o meu pai, que sempre argumentava a meu favor.
Para resolver o meu “problema”, minha mãe me inscreveu na Fundação Curro Velho para fazer teatro. Ela nem imaginava que perderia a guerra de uma vez por todas. O teatro me apresentou a Shakespeare, Brecht, Beckett, Molière, Nelson Rodrigues... E a fundação me oferecia uma formação cultural que eu não encontraria em lugar nenhum. Foi lá que eu aprendi a gostar de artes plásticas, de cinema, de dança, de música popular e clássica e da cultura paraense. Foram os melhores anos da minha vida!! Em que eu conheci meus melhores amigos e meu marido. De certa forma, minha mãe se animou um pouco porque eu passei a sair de casa e a namorar.
Mas chegou a vida adulta, e, com ela, as responsabilidades do trabalho e da universidade. Precisei abandonar o Curro Velho e a vida artística para ser “gente grande”. Nunca mais voltei. Durante alguns anos, isso me atormentou. Eu tinha a sensação de estar incompleta, perdida num mundo que não era meu. Sempre senti uma saudade enorme de voltar a atuar. Mas o tempo me mostrou que não era bem isso. Na verdade, eu sentia falta das pessoas, dos amigos, da atmosfera do teatro, na arte pulsando na veia, do não ter compromisso com nada a não ser com a arte... e não do "atuar" em si. Essa fase da minha vida está muito bem guardada no lugar mais aconchegante do meu coração. Quando eu desci do palco para conhecer a vida real, ela me tomou por completo... Infelizmente.
Mas, voltando à leitura, aquela paixão avassaladora se transformou em amor. Hoje, leio pouco, muito menos do que gostaria. Mas costumo dizer que são os livros que me escolhem. Na maioria das vezes em que vou a uma livraria, não tenho nenhum livro em mente. Prefiro passear por entre as prateleiras, folhear um aqui, outro acolá, até que algum deles me escolha, ou não. Não forço mais a barra. Sempre que o fiz, eles ficaram pela metade.
Em casa, acumulei um pequeno tesouro: uma estante com os meus livros preferidos. Essa é a herança que eu pretendo deixar para minha filha – que já se mostra uma leitorazinha compulsiva aos seis anos de idade. E eu me orgulho muito disso, porque é culpa minha. Acho lindo vê-la sentando no sofá ao meu lado, com “Marcelo, Marmelo, Martelo” debaixo do braço, dizendo que vai ler para mim. E, pela milésima vez, eu escuto com atenção, desejando que esta cena se repita inúmeras vezes pelas futuras gerações da minha família.
Deidy Cunha
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